O outro lado do problema


Apesar da amplitude que o bullying ganhou nos últimos anos, não é um fenômeno novo. Bullying é um termo em inglês utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo.  Pesquisadores afirmam que o bullying começa dentro de casa e pode ocorrer em qualquer contexto social, como escolas e universidades. Ações como agredir, gozar, intimidar, perseguir, ameaçar, ofender, humilhar, discriminar, excluir um indivíduo do grupo, mentir, espalhar boatos, assediar, dentre outras condutas negativas intencionais, sem motivo evidente, são consideradas como bullyng. Já bullies é o termo usado para quem pratica tais ações. Crianças e adolescentes com problemas emocionais, com baixa tolerância à frustração, que não apresentam sentimentos de respeito e solidariedade, possuem uma concepção positiva acerca da violência, hábito de receber tudo que deseja e admiração por figuras, personagens e histórias que valorizam a destruição e a humilhação alheias, tem grande tendência a praticar bullyng. 
Diante de tantos aspectos negativos, como reconhecer que o próprio filho pratica tais ações? O amor oceânico que envolve os pais em relação aos seus filhos costuma ser incondicional e produzir uma concepção idealizada, o que significa ver no filho sempre o melhor, o mais bonito, o mais puro. Desta forma, aspectos que evidenciam comportamentos considerados socialmente inaceitáveis passam ao largo da percepção dos pais.  O amor é condição básica para o desenvolvimento humano, mas se a ele não for acrescentada educação, o resultado tende a ser preocupante.  
Não é preciso uma análise mais profunda para perceber que na atualidade os pais protegem e satisfazem muito mais os desejos dos filhos, do que propriamente educam. A educação é na verdade a preparação para a convivência em sociedade, pautada em valores éticos, morais e fraternos, na qual o respeito ao outro é essencial, envolve afeto sim, mas também racionalidade. Crianças que não recebem desde cedo limites acabam por desenvolver personalidades autoritárias, comportamentos transgressores aliados a forte necessidade de controlar ou dominar. 
Como identificar se o seu filho apresenta esse tipo de conduta? 
Atenção ao comportamento cotidiano é fundamental! Você sabe como é o comportamento do seu filho em família? Ele desafia as suas ordens? É frequentemente hostil com crianças mais novas que ele? Apresenta ausência de vergonha e culpa quando comete alguma “maldade” com os outros? Não se justifica diante de situações comprometedoras? E na escola? Você recebe reclamações sobre o comportamento dele? De que tipo? Ele insulta e ridiculariza os colegas? Faz ameaças, subjuga e dá ordens aos mais tímidos? Usa apelidos pejorativos? Pega material, lanche, dinheiro, dentre outras coisas, dos colegas sem autorização? Se você verificou que os comportamentos citados não são ocasionais está na hora de uma observação mais sistemática. Então vamos lá!
Passe a verificar a ausência de habilidade social, perceber a ocorrência da combinação de intimidação e humilhação para torturar os outros, do uso de  desqualificação das realizações dos colegas, irmãos ou parentes, perceber o uso frequente de comentários depreciativos sobre a família de uma pessoa (particularmente a mãe), desvalorização sobre o local de moradia, críticas severas sobre a aparência pessoal, intolerância  quanto a orientação sexual, religião, etnia, nível socioeconômico, uso de sarcasmo e prática de chantagem para obter do outro o que deseja. Estes são alguns dos comportamentos indicativos de que a criança ou adolescente está utilizando a prática de bullying. 
O que fazer?
 Primeiro reconhecer que bullying é um tipo de violência que precisa ser proibida. Aconselho que os pais procurem conhecer mais sobre o assunto, que não só entrem em contato com a escola, mas, sobretudo, torne a equipe escolar uma grande aliada no enfrentamento da questão. Segundo, é imperioso que os pais não fechem os olhos e que não usem aquela expressão de banalização tão comum: “É coisa da idade!” Não é! Negar, redobrar os mimos, o atendimento das demandas apresentadas pelo filho, trocar de escola, enfim, investir na satisfação como garantia de que ele ficará feliz e tudo ficará bem, não resolverá o problema. 
Desejo também alertar que é um equívoco os pais se colocarem no lugar de amigos compreensivos e não exercerem o dever de educar, de colocar limites e estabelecer proibições. Pais precisam saber dizer não, estabelecer o que é certo e o que é errado, e quais os limites que precisam ser seriamente respeitados! Amigos aconselham e até esperam ser ouvidos. Pais estabelecem orientações precisas e seguras e devem cobrar respeito às regras estabelecidas. Educar é também contrariar, estabelecer diretrizes, cobrar seu cumprimento, ensinar valores, ser o parâmetro, ou seja, referência para os filhos. Terceiro. Dê liberdade com responsabilidade! Dialogue sobre causa e efeito, atos e consequências! Participe o mais ativamente possível do cotidiano do seu filho! Não faça suposições – conheça seu filho! Saiba que conhecendo a maneira pela qual ele pensa, age e sente, você terá mais condições de avaliar criticamente o que acontece com ele.
E lembre-se.  No céu também surgem nuvens escuras. O que quero dizer com isto? Que não é possível ser amado o tempo todo por seus filhos. Que é preciso, muitas vezes suportar a raiva momentânea do filho, tendo a certeza de que está contribuindo para sua formação humano-afetiva saudável. 
No mais, boa sorte!

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27 set 2017


Por Fátima Scaffo
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